Santo Agostinho, um homem do nosso tempo

Os tempos são propícios a que nos debrucemos sobre alguém como santo Agostinho, alguém que viu ruir o Império Romano e soube integrar com invulgar sabedoria o pensamento do seu tempo com a deslumbrante Verdade da Fé simbolizada no pensamento do Homem Novo que descobriu em Jesus.
Em tempos como aqueles que vivemos é essencial encontrarmos tempo e espaço para a “interiorização”, pedra fundamental do pensamento agostiniano :

” Não saias para fora de ti, regressa a ti mesmo porque a verdade habita no interior do homem”.
O ponto de partida para a busca da Verdade não se encontra no exterior, no conhecimento sensível, mas sim na intimidade da consciência.

“Se queres saber onde encontra o sábio a sabedoria, dir-te-ei que é no interior de si mesmo”.
Apesar de ter assimilado as ideias platónicas que propiciaram a avaliação do mundo, a distinção entre o Bem e o Mal, o Belo e Feio – ideias de ordem moral, de ordem matemática e de ordem estética – Agostinho empenha-se, sem as renegar, na TRANSCENDÊNCIA do bloqueio que elas representam, na capacidade que todo o homem tem de se auto-transcender, de buscar algo para além de si mesmo, sendo que esse ‘algo’ reside no interior de si próprio, na sua própria vontade, vontade que põe em acto a sua inteligência, sendo que da conjugação de ambas – da Fé que transcende a Inteligência e da Razão que impulsiona a Vontade – se faz a história da Humanidade.
Creio que esta percepção da coexistência – e não  mistura – desta duas vertentes e suas raízes delineou um caminho reflexivo que acabou percorrendo todo o pensamento ocidental através das vertentes por ele propostas.
Vamos reencontrá-lo em Hegel na sua visão transcendente da História, podemos encontrá-lo em Schopenhauer na poder da ‘vontade de poder’.
E, acima de tudo, está cada vez mais entre nós, no dia a dia de um mundo que procura encontrar-se no meio dos destroços a que ele mesmo os reduz, em que a cidade de Deus parece cada vez mais distante da cidade dos homens.

DEMOCRACIA

Ao contrário do que nos é diariamente vendido como ‘crise’ aquilo de que o mundo padece de facto é de uma obsessão que começou por ser ministrada como uma espécie de terapia contra as ditaduras que se seguiram às duas grandes guerras do século passado – única maneira de, melhor ou pior, transformar em cosmos o mundo caótico delas saído – e se transformou num modelo único, considerado ideal, justificação de todas as intromissões, justificação para uma globalização que sendo mercantil se apresenta como progresso social. Chama-se ela Democracia e, em seu nome -há muito isento de outro conteúdo que não seja o dos interesses que  esconde – tudo é permitido, justificado por falsas promessas , megalómanos projectos e maquiavélicas estratégias com que, num mundo em que a informação é cuidadosamente orientada para fins determinados pelos foruns onde convivem os poderes de uma Civilização vitimada por duas revoluções – uma teórica, a Francesa; outra pragmática, a revolução industrial – que, embora divergentes nos propósitos, marcaram definitivamente  o rumo da civilização ocidental, que se espraiou pelo mundo e vê hoje caírem sobre si as consequências da ausência de projecção dessas mesmas consequências para o um futuro que teimamos em ignorar em privilégio do presente. Tal seria possível se não tivéssemos inventado o tempo.

A revolução Francesa prometeu enciclopedicamente uma sociedade que requeria estados de alma individuais unidos por um projecto comum visando a criação de um mundo de portas e corações abertos, partilhando uma só alma que alastraria pelo mundo. O celebre quadro de Delacroix documenta primorosamente o modo como a Liberdade – apenas ela! – calcou aos pés os restantes propósitos, substituída a fraternidade – não, é certo, a que Cristo apregoou – pela ânsia de uma igualdade em que se enfrentavam a inveja, a ganância e o terror. Napoleão, grande admirador da Antiguidade Clássica, teve a sublime pretensão de matar o passado da Europa para construir uma outra, ao seu jeito, e com ela trouxe para a ribalta de uma recém criada classe média o brilho faustoso dos palácios, vivido neles até então com o comedimento de quem conhece o valor das coisas. A miséria espalhou-se pela França em todas as suas formas e havia que mantê-la com a mesma esperança que a fizera crescer e fizera aumentar em número e qualidade as desigualdades. A sociedade ocidental bem-pensante e confortavelmente instalada – mortos que tinham sido os seus ideólogos – viu com bons olhos essa aproximação ao Poder e transformou-a em inspiradora doutrina, lembrando esporádica e convenientemente o sentido universal que se propunham, esquecendo,  evitando ver ou afastando-a de onde pudesse ser vista a infra-humanidade que corroía os bairros  miseráveis das cidades. E nada disso se alterou de forma tão retumbante e significativa como os propósitos enunciados e a sua validade. Ler Heródoto ou os contos bíblicos do Antigo Testamento teria sido suficiente para conhecer as particularidades da natureza humana e a força desmedida que opõem a tudo o que toque a sua essência.

A revolução industrial, apesar das virtudes vitorianas, não trouxe consigo mais do que aquilo que objectivamente visava: a criação de riqueza através dos recursos que se disponibilizava a si própria, desde o material ao humano. O desenvolvimento, que de inicio criou, foi rapidamente ultrapassado pela noção de ‘progresso’, algo de imparável que de há muito ultrapassou o controlo das sociedades ocidentais e as expõe ao ridículo de, conhecendo os danos que causam ao ambiente e a desumanização a que condenam as sociedades, dissertarem nos grandes areópagos internacionais sobre os problemas sociais que criaram e fomentam, mascarados de pomposas preocupações e floridos propósitos. A verdade é que o Emprego depende da Produção, a Produção do consumo – os consumidores viraram ‘benfeitores’- o Consumo do Capital, e o Capital comanda este fatídico mundo através daqueles que o gerem e onde Religião e Política se entrosam para imprimir à ganância e ao espavento um halo de espiritualidade. Somos um mundo condenado a sobreviver através de enganos! Dos enganos que uma comunicação feroz publicita e de uma retórica que se foi despojando de moral para sobreviver ela própria e ainda conseguir ser ouvida.

No meio de tudo isto o futuro do Mundo parece residir na imposição de um convívio tolerante e democrático, em que as exigências de tolerância sejam   impostas em nome da Democracia, mesmo para aqueles que não só não lhe conhecem sequer o significado mas apenas as virtudes que são apregoadas como sendo-lhe associadas, como a rejeitam genuína, essencial e culturalmente. O Ocidente, contudo, dá a vida por ela, mesmo que nos subúrbios de Chicago, Nova Iorque, e de todas as cidades europeias     a miséria se arraste, as desigualdades continuem o seu percurso histórico mudando apenas os protagonistas, a liberdade sofra as imposições que os estados impõem, e a fraternidade – baptizada agora de solidariedade para se distanciar das fidelidade maçônicas – seja cada vez mais condicionada pelos grupos que, apesar de tudo, mantêm coesa essa sociedade injusta.

A Democracia, ao contrário Poder – que alimenta quotidianamente a contestação e motiva tanto o agricultor na sua relação com a Natureza, como o rei que contesta fronteiras – é uma invenção humana que se tornou obsessiva e está servindo de pretexto a abusivas intromissões que nos sairão caríssimas porque o preço dela é pago em vidas. E está mais do que provado que ser a Democracia inimizada Meritocracia que o mundo insiste em afastar escudado por humanitárias preocupações. E, contudo, nada mais humano do que a Paz! E é dela que o mundo carece e, dentro dele, cada um de nós….

LEARNING TO GET OLD -I

Christmas time always appeals for a more affectionate way to look the more fragile members of our families, to those we usually give little time in our busy lives. Among those, old people is usually remembered in a different and more attentive way and given the opportunity to share family life as a whole, even if they spend most of the year alone and far away, almost forgotten, waiting for a visit or a telephone call.

The fact is that differently from what happens with other ages of personal life we only know what old age is when we are happy enough to reach it!

Old age is a mysterious place you enter in without knowing why till you suddenly  discover yourself there when most of the easy things you usually do in your daily life turn to be more time consuming and difficult. Then you may accommodate to the situation or enter a denial process forcing yourself to perform as nothing had happened. If so you become an enthusiastic gymnast, you encourage the speed of your movements, you speak, behave and do things having in mind the one you were and refusing to turn the page. This, in modern terms, seems to be the right decision and the one that deserves public applause.

Nevertheless, in what the variety of seasons life is made off you are loosing something you risk to die without experiencing : the serenity of looking things from the place  time had let you to enjoy vivid experience and knowledge of the different paths of life. The choice is between life and performance.

It is rather curious – and it would be impossible to be the other way round – the fact that those who overlook  questions related with old age know almost as much about it as we know about death! All the experience we have is other people’s old age and death!

Contrary to what happens when talking about childhood, youth and mature age, no one can talk about old age with precise knowledge.

However, if there are questions that deserve social attention old age is one of them . Due to a lot of well known reasons the age pyramid has been for years inverting its base of youngsters to substitute it by almost centenary people, causing a generations problem very difficult to find a socially satisfactory solution.

It is true you can ask people to work for more a decade or to let life take its way, if without pain and suffering, and give up al those treatments and medicines that keep you alive even when you do not feel like so and social means are showing to be unable to go on with this kind of cares. But this, besides to be seen as inhuman in a society like ours, as gone too far to make people understand that sometimes it is stupid to insist with life. If you were born to live for an hundred  years you will accomplish your life time with no need for external help.

Concerning to prolong retirement does not seem an ideal solution. In a world where unemployment increases, machines are being there to do a lot of the work men usually do and human imagination has lost the way of simplicity it seems normal old people get out to give employment to those who are young and want as much to start a family as society needs them to do so.

Tat does not mean – on the contrary! – that old people, who had been the ‘creator’ of the present generations and have done their best to let them a world as good as they can imagine or preview, do not deserve to be cherished and deserve as much comfort, peace and as much care family and society can afford them. It only means that perhaps it is time to begin an education for preparing old age…  (to be continued)

EUROPE? IS THERE SUCH A THING?

The awful events that afflicted Paris and obviously all Europe has shown the lack of self-protection the european continent – as it is usually called…- has been capable to create and how poorly it invested in security when comparing with other kind of investments of immediate and profitable return. Most part of european countries count on the US ally to say how to solve the problems and to materialize the needed help.

This situation, that follows the great role US played in Second World War aside with the Allies that were fighting the Eixo, put Europe in the uncomfortable and often uncounscious position of following other countries’ interests without questioning the consequences that might come, but also put it comfortably set in the position of one that knows for sure protection will come if needed from a powerful ally.

This mentality generated the kind of politicians that have ruled Europe for the last decades, all of them more interested in their ideological positions than in the practical problems of each country and the european continente would face sooner or later. Economy and the magic fields that surround it – ‘globalization’, markets’, so on…- became the enchanted words that let them free to approve or contest ‘democracy’, ‘racism’, ‘freedom’, ‘solidarity’ and a lot of political slogans that became no more than that without changing the most grave problems linked to them society is still really facing.

“The Economist” last cover, showing Merkel as ‘the indispensable European’, tells us something about us! Tough one may think of Merkel as more an euro-asian than an ‘european’- the ends of last century´s wars led us to think that Germany and Russia are enemies but the reality is that they have been for centuries traditional allies…- she is the only real  politician that leads now in Europe. Apart from her other european countries are passing through one of the most grey – if not the most….- crises of leaderships of the modern era. It is true Cameron is also a good politician. But the fact is that we can hardly think of Great Britain as an european country! It’s true that the anglo-saxonic culture has a lot of the european culture values and principles  and that the english have contributed a lot to spread and enrich it but the anglo-saxonic culture bears its own specificities and its world is the CommonWealth not Europe.

Though it may seems a very sad perspective to think about, the fact is that everything everywhere – including in its own space – all is being done to put an end to european civilization the way europeans used to proudly see it.

Europe is a very small continent with an historical sense of time and an adventurous spirit. But now that is not enough! Money rules the world at a speed we cannot even imagine and Europe became no more than the place where other continents – rich, emergents or seeing european civilization as something that is blocking progress – only see as a place to invest and to take profits and cultural signs off.

Perhaps in a century no one will be surprised by seeing the Eiffel Tower or the Coliseum of Rome in New York or in some Arabian emirate….

O BOOM EDITORIAL QUE ASSOLOU AS BANCAS DE VENDA DE LIVROS

De todas as artes, a Literatura – e consideremos o conceito num sentido amplo….- talvez seja a que mais beneficiou com os avanços tecnológicos que permitem a sua divulgação e, pela rapidez, lhe conferem a liberdade de  tudo ser passado à escrita sem qualquer espécie de avaliação que vá para além da proporcionada pelos próprios meios utilizados – corretores de erros (que vieram em socorro dos dislexicos e dos que tiveram a dita de atravessarem vários acordos ortográficos), assistentes de fórmulas gramaticais (nem sempre as mais correctas…), acesso a redes sociais de publicidade e marketing, e os vários outros que são do nosso conhecimento. Isto deixando de lado as virtualidade da tradução automática que permitem que um livro que escrevi numa noite de insónias  esteja traduzido nas mais variadas línguas onde os editores – e são à centenas! – têm contactos. A globalização a funcionar no seu melhor…

Se juntarmos a isto a possibilidade de catarse que a escrita propicia a uma sociedade assoberbada de problemas que a ultrapassam e, simultaneamente, o desejo de visibilidade, de se ser ‘conhecido’ pelo vasto mundo que, é-nos lícito supor – embora seja a mais ilusória das pretensões…- nos conferirá um qualquer grau de ‘imortalidade’ por mínimo que seja, é compreensível o ‘boom’ literário que invade todos os espaços propícios. desde as bancas e quiosques de jornais aos supermercados, passando pelas várias FNACs e livrarias de bairro. Salvam-se desta vaga  OS LIVREIROS  que, diga-se, são uma espécie em vias de extinção, requintados espaços onde quem procura um bom livro se satisfaz e regala.

Vem isto a propósito de um volume que me veio parar recentemente às mãos e que, embora o tema parecesse aliciante e promissor no sentido de desvelar a humanização de um mistério recorrentemente abordado -embora com menos prosódia – a uns anos a esta parte, me pos a reflectir mais na sua existência como livro do que no tema abordado.

Trata-se de um livro, assaz volumoso, que versa nem mais nem menos que sobre ‘A vida privada de Jesus’, versão em que, entre crentes e não crentes, é de crer que dificilmente alguém esteja interessado na vida privada de um personagem que viveu há mais de dois mil anos e cujo único interesse é o de ter fundado uma religião cuja espiritualidade era humanizada pelo convite ao amor real, vivído na fraternidade dos homens.

O livro, assaz confuso mesmo para quem esteja habituado perspectivas e retrospectivas para que nos remetem os documentos históricos ‘inéditos’ – atribuídos à descoberta e investigações de dois académicos canadianos que os terão descoberto na Biblioteca Britânica – não se limita a dar conta dos textos e , talvez, proceder ao seu enquadramento histórico, mas é pasto das mais livres considerações, considerações que se perdem num infinito regresso que deixaria Proust a perder de vista.

No meio de toda aquela confusão – que mais parece ter como finalidade encontrar argumentações para comportamentos susceptíveis de serem considerados ‘desviantes’ dentro de uma ortodoxia religiosa e que, se ‘vendidos’ como práticas comuns no tempo e no espaço da vida de Jesus – encontramos Maria, a Mãe de Jesus, confundida com deusas pagãs, o que não é surpreendente porque o mundo já era velho quando Jesus nasceu, com Maria ‘a Madalena’ e tudo remetendo para a aceitação ou não de circunstâncias que nada têm de objectivo para além da vontade dos autores de buscarem na História as conclusões que desejam.

Vendido e apregoado na contra-capa como sendo ’em parte história de detectives, em parte aventura moderna’ promete ao leitor um interesse de que na verdade carece porque é, pela falta de clareza, uma imensa canseira! Mesmo para aqueles que vêm apenas em Jesus o personagem de uma história de cariz culturalista. A capa é, quanto a mim, o melhor do livro. Como, aliás, está começando a acontecer nesta precedência natalícia em que o embrulho é o principal…