O ETERNO PRESENTE

Em tempos de crise – crise de tudo o que sendo essencial foi suplantado pelas mais efémeras ilusões – o Presente torna-se o lugar e excelência dentro da concepção de tempo que criámos, e enche de tal modo os nossos dias que o Passado e o Futuro se tornam lugares de angústia e desesperança que não desejamos frequentar.

“Um dia de cada vez” tornou~se uma frase comum, quase um lema de vida. E assim vamos arrastando o Presente, dia após dia, o Passado frequentado como um relato histórico, como um país estrangeiro de que temos notícia e por onde passámos mas onde sabemos não poder voltar.

Trazer o Passado ao Presente – não como um velho coronel que rememora as suas aventuras de guerra mas no modo como ele persiste no nosso íntimo e nos suscita comparações e memórias de alguém de quem, continuando a ser, fugimos – exige uma coragem que receamos poder desviarmos do presente vivido, urgente, repleto de inadiáveis questões que lhe dão uma insólita continuidade.

‘Amanhã’ já não é mais um novo dia mas a continuação de este ‘hoje’ que nos conduz apressadamente para uma finalidade que ignoramos mas que tem o condão de nos motivar como se o mundo todo dependesse de nós. Dizem-no os políticos, os altos clérigos – em tempos psicólogos de confessionário, hoje sociólogos da comunicação social -, dizem-no todos os que não tendo soluções optam por individualizar os problemas.

É certo que se cada homem fosse perfeito no que faz e tendo a noção exata do valor humano do seu trabalho não trabalhasse por poder, por glória ou por dinheiro ou se, atingindo-os com justeza e retidão, os pusesse ao serviço do bem comum, o mundo seria um lugar feliz onde uma Saudade boa e orgulhosa conviveria com a Esperança.

Recusamos a coragem de revistar o passado e regressar ao que nele houve de essencialmente bom e transcendente e não nos atrevemos a alimentar a esperança que conduz ao futuro. Vivemos no Hoje. Para ele acordamos e com ele nos deitamos. E fazemo-lo não com a sã consciência do lavrador que sabe que enquanto dorme a Natureza lhe preserva o passado e lhe alimenta o futuro, mas com o doloroso cansaço de sermos obreiros de uma tarefa continua e sem outro fim que não seja o nosso porque previsto.

Já não é Cruz o que carregamos!

Na verticalidade da Cruz a  sincronia do presente arrasta com ela a diacronia do passado e delineia  um futuro que dá continuidade à própria criação.

Afundados na nossa imensa e soberba criatividade fomos levados através dos séculos a esquecermos-nos de quem somos para sermos apenas aquilo que fazemos. Esquecimento terrível que nos conduziu onde estamos e de onde não sabemos como sair. Preferimos o progresso ao desenvolvimento e o progresso acabou prescindindo de nós. O que fizemos transformou-se em ‘ouro’ e quem o avalia somos nós segundo os critérios dos mais efémeros presentes.

Não tivesse o Homem inventado o tempo ignorado os ininterruptos passeios e desencontros do Sol e da Lua na sua serena rotatividade e não haveria mais que Presente. Quem sabe não terão os primeiros homens julgado que a escuridão e a luz não eram exteriores a eles!

Mas os homens dividiram a Vida em parcelas mesmo não lhes sendo dado conhecer a dimensão que a cada um era concedida e empenharam-se em encher cada momento. Com isso foram construindo o que viria a ser ‘o passado’ e seria esse passado que iria moldando cada ponto com que se moldaria o futuro.

Hoje, quando tantas loas erguemos ao “presente” o presente é apenas o lugar esquivo onde, alienadamente, procuramos esquecer as outras dimensões do tempo que criámos.

O Tempo de Deus, porque infinito, não tem passado nem futuro. Limita-se a ser! Um lugar onde parecemos esquecidos do que realmente somos e vivemos identificados e avaliados pelo que fazemos.

Hoje a escrita – que não a literatura…- desafia a máquina. Nunca se escreveu tanto e é difícil imaginar o destino da maior parte do que vemos pelas bancas. Porque nem sequer restou a subtileza que leva o passado a qualquer presente.

Vendo há dias uma peça de Shakespeare – feliz programação do canal 2 – deliciou-me a actualidade, o humor, a sensibilidade e a crítica nela contidas e maravilhou-me uma vez mais a generalidade profética  que ausculta a imutabilidade do homem em sociedade.

Cinco séculos não fizeram de nós melhor gente! Gastámos-nos a explorar o Espaço para nossa glória enquanto nos esquecíamos de, para nossa miséria, cuidar da Terra e dos que nela vivem. Desafiámos a distância, o som e a luz. Em breve daremos prioridade aos robots.

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