“De la musique avant toute chose!”

A Música, descoberta como a linguagem mais imediata entre os homens e a transcendência  sagrada do Silêncio, e que terá começado tímida e docemente na flauta dos pastores, foi poesia, expressão de …

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“De la musique avant toute chose!”

A Música, descoberta como a linguagem mais imediata entre os homens e a transcendência  sagrada do Silêncio, e que terá começado tímida e docemente na flauta dos pastores, foi poesia, expressão de costumes e alegrias rurais, composição nascida de requintadas solidões, interpretação melódica, regalo para o ouvido atento que ao escutá-la esquece tudo o resto. Foi também, é certo, marcha de guerra, estridente impulso a trágicos desfechos.

As gerações mais novas, embriagadas pela estridência dos metais e por toda a estética gestual que acompanha a celebração do momento, desconhecem o prazer da música limpa, da ‘grande música’ que fez a delícia das épocas de requintados vagares.

Em Portugal a Cultura – se tal tem ido para além das ‘mostras’ e das celebrações pontuais – não tem manifestado o mais ténue interesse pela cultura musical. Não somos um povo musical! Daí que todas as iniciativas levadas a cabo no sentido de incentivar esse prazer surjam como algo secundário, um prazer de elites que não temos e cuja hipotética emergência é renegada como algo anti democrático.

E, contudo, tivemos excelentes programas televisivos de educação musical que parecem jazer esquecidos nos tais arquivos da TV pública que J.Isidro e outros vão desbravando, umas vezes com critérios ‘popularuchos’, apelando às audiências através dos mais velhos, outras, afortunadamente, recordando-nos quem já fomos.

No que à Música se refere são inesquecíveis a maravilhosa série de programas que ANTÓNIO VICTORINO DE ALMEIDA gravou em Viena e a TV apresentou em Portugal. Assistir a esses programas foi um privilégio.

Victorino de Almeida, à época um charmoso jovem no ambiente da romântica e civilizadíssima capital austríaca, trazia até nós, com insuperável humor e sabedoria a mais apelativa visão dos grandes compositores germânicos. Um mundo de cultura e requinte que faria bem a todos nós revistar. Não porque seja aquela a única música, ou aqueles os únicos músicos merecedores de referência, mas porque através deles nos incutia o gosto pela música de um modo leve, sem nada de fastidioso.

O Maestro Victorino de Almeida, compositor, interprete, ótimo comunicador é decerto a maior e mais injustamente esquecida ou deliberadamente ignorada personalidade do nosso panorama musical. Tal como acontece com grandes interpretes como interpretes mundialmente reconhecidos como Maria João Pires e Sequeira Costa. Temos horror ao talento e glorificamos histerismo colectivos e manifestações grosseiras com fundo dito musical. É isso que dá lucro e, acima de tudo, cria multidões de jovens alienados por factores vários que os impedem de pensar e lhes roubam o prazer do apreço sereno que  música requer.

Também na Rádio têm  surgido programas que merecem, caso a Cultura se interessasse por isso, serem adaptados à TV. Lembro, como exemplos, as “Questões de Moral” de Joel Santos e o ótimo programa de António Cartaxo – “Em Sintonia”. Parece um tremendo desperdício não aproveitar o gosto pela musica e o poder de comunicação destes homens para proporcionar às novas gerações um pouco mais do que aqueles excitantes vídeos em que a música aparece mais como pretexto do que como motivo.Mais que não seja para lembrar que a Música tem uma história feita de muitas histórias e que talvez seja altura de fazer regressar o sentido auditivo ao rumor de brisa que era o da primitiva flauta.

Porque, como dizia António Cartaxo no final de cada um dos seus programas:

“A Música é um romance sem fim!”

O ETERNO PRESENTE

Em tempos de crise – crise de tudo o que sendo essencial foi suplantado pelas mais efémeras ilusões – o Presente torna-se o lugar e excelência dentro da concepção de tempo que criámos, e enche de tal modo os nossos dias que o Passado e o Futuro se tornam lugares de angústia e desesperança que não desejamos frequentar.

“Um dia de cada vez” tornou~se uma frase comum, quase um lema de vida. E assim vamos arrastando o Presente, dia após dia, o Passado frequentado como um relato histórico, como um país estrangeiro de que temos notícia e por onde passámos mas onde sabemos não poder voltar.

Trazer o Passado ao Presente – não como um velho coronel que rememora as suas aventuras de guerra mas no modo como ele persiste no nosso íntimo e nos suscita comparações e memórias de alguém de quem, continuando a ser, fugimos – exige uma coragem que receamos poder desviarmos do presente vivido, urgente, repleto de inadiáveis questões que lhe dão uma insólita continuidade.

‘Amanhã’ já não é mais um novo dia mas a continuação de este ‘hoje’ que nos conduz apressadamente para uma finalidade que ignoramos mas que tem o condão de nos motivar como se o mundo todo dependesse de nós. Dizem-no os políticos, os altos clérigos – em tempos psicólogos de confessionário, hoje sociólogos da comunicação social -, dizem-no todos os que não tendo soluções optam por individualizar os problemas.

É certo que se cada homem fosse perfeito no que faz e tendo a noção exata do valor humano do seu trabalho não trabalhasse por poder, por glória ou por dinheiro ou se, atingindo-os com justeza e retidão, os pusesse ao serviço do bem comum, o mundo seria um lugar feliz onde uma Saudade boa e orgulhosa conviveria com a Esperança.

Recusamos a coragem de revistar o passado e regressar ao que nele houve de essencialmente bom e transcendente e não nos atrevemos a alimentar a esperança que conduz ao futuro. Vivemos no Hoje. Para ele acordamos e com ele nos deitamos. E fazemo-lo não com a sã consciência do lavrador que sabe que enquanto dorme a Natureza lhe preserva o passado e lhe alimenta o futuro, mas com o doloroso cansaço de sermos obreiros de uma tarefa continua e sem outro fim que não seja o nosso porque previsto.

Já não é Cruz o que carregamos!

Na verticalidade da Cruz a  sincronia do presente arrasta com ela a diacronia do passado e delineia  um futuro que dá continuidade à própria criação.

Afundados na nossa imensa e soberba criatividade fomos levados através dos séculos a esquecermos-nos de quem somos para sermos apenas aquilo que fazemos. Esquecimento terrível que nos conduziu onde estamos e de onde não sabemos como sair. Preferimos o progresso ao desenvolvimento e o progresso acabou prescindindo de nós. O que fizemos transformou-se em ‘ouro’ e quem o avalia somos nós segundo os critérios dos mais efémeros presentes.

Não tivesse o Homem inventado o tempo ignorado os ininterruptos passeios e desencontros do Sol e da Lua na sua serena rotatividade e não haveria mais que Presente. Quem sabe não terão os primeiros homens julgado que a escuridão e a luz não eram exteriores a eles!

Mas os homens dividiram a Vida em parcelas mesmo não lhes sendo dado conhecer a dimensão que a cada um era concedida e empenharam-se em encher cada momento. Com isso foram construindo o que viria a ser ‘o passado’ e seria esse passado que iria moldando cada ponto com que se moldaria o futuro.

Hoje, quando tantas loas erguemos ao “presente” o presente é apenas o lugar esquivo onde, alienadamente, procuramos esquecer as outras dimensões do tempo que criámos.

O Tempo de Deus, porque infinito, não tem passado nem futuro. Limita-se a ser! Um lugar onde parecemos esquecidos do que realmente somos e vivemos identificados e avaliados pelo que fazemos.

Hoje a escrita – que não a literatura…- desafia a máquina. Nunca se escreveu tanto e é difícil imaginar o destino da maior parte do que vemos pelas bancas. Porque nem sequer restou a subtileza que leva o passado a qualquer presente.

Vendo há dias uma peça de Shakespeare – feliz programação do canal 2 – deliciou-me a actualidade, o humor, a sensibilidade e a crítica nela contidas e maravilhou-me uma vez mais a generalidade profética  que ausculta a imutabilidade do homem em sociedade.

Cinco séculos não fizeram de nós melhor gente! Gastámos-nos a explorar o Espaço para nossa glória enquanto nos esquecíamos de, para nossa miséria, cuidar da Terra e dos que nela vivem. Desafiámos a distância, o som e a luz. Em breve daremos prioridade aos robots.

Santo Agostinho, um homem do nosso tempo

Os tempos são propícios a que nos debrucemos sobre alguém como santo Agostinho, alguém que viu ruir o Império Romano e soube integrar com invulgar sabedoria o pensamento do seu tempo com a deslumbrante Verdade da Fé simbolizada no pensamento do Homem Novo que descobriu em Jesus.
Em tempos como aqueles que vivemos é essencial encontrarmos tempo e espaço para a “interiorização”, pedra fundamental do pensamento agostiniano :

” Não saias para fora de ti, regressa a ti mesmo porque a verdade habita no interior do homem”.
O ponto de partida para a busca da Verdade não se encontra no exterior, no conhecimento sensível, mas sim na intimidade da consciência.

“Se queres saber onde encontra o sábio a sabedoria, dir-te-ei que é no interior de si mesmo”.
Apesar de ter assimilado as ideias platónicas que propiciaram a avaliação do mundo, a distinção entre o Bem e o Mal, o Belo e Feio – ideias de ordem moral, de ordem matemática e de ordem estética – Agostinho empenha-se, sem as renegar, na TRANSCENDÊNCIA do bloqueio que elas representam, na capacidade que todo o homem tem de se auto-transcender, de buscar algo para além de si mesmo, sendo que esse ‘algo’ reside no interior de si próprio, na sua própria vontade, vontade que põe em acto a sua inteligência, sendo que da conjugação de ambas – da Fé que transcende a Inteligência e da Razão que impulsiona a Vontade – se faz a história da Humanidade.
Creio que esta percepção da coexistência – e não  mistura – desta duas vertentes e suas raízes delineou um caminho reflexivo que acabou percorrendo todo o pensamento ocidental através das vertentes por ele propostas.
Vamos reencontrá-lo em Hegel na sua visão transcendente da História, podemos encontrá-lo em Schopenhauer na poder da ‘vontade de poder’.
E, acima de tudo, está cada vez mais entre nós, no dia a dia de um mundo que procura encontrar-se no meio dos destroços a que ele mesmo os reduz, em que a cidade de Deus parece cada vez mais distante da cidade dos homens.