“Experimente pensar diferente”

Este é um dos muitos ‘slogans’ com que nos deparamos todos os dias em anúncios, em outdoors, em títulos de livros de editoras desconhecidas – muitas delas do próprio autor que sob nomes falsos e diversos, estrangeiros e nacionais, e apregoando prémios e números de edições inexistentes, mas suficientemente abastado para escrever à sua conta, sem ter que pensar no prejuízo, e distribuídos depois  por editoras já conhecidas do público leitor que, atendendo aos lucros que ele dá com a aquisição, através de redes comerciais que domina, de outras obras de autores estrangeiros com traduções e revisões automáticas e apressadas para encherem as bancas, consumirem papel, dar trabalho a gráficos com dezenas de edições do mesmo título – caso infeliz de “O Principesinho” -, obras que raramente se vê alguém comprar mas que os investidores nesta área do ’empreendorismo’ compram e oferecem… ainda que os não leiam.

O conselho de “pensar diferente’ não faz, por si, qualquer sentido! Diferente de quê? Do que ‘os outros’ pensam? E sabemos lá o que pensam eles se nem sequer sabemos se pensam!

O indicado talvez fosse dizer simplesmente “Experimente Pensar!” porque na verdade é aí que reside um problema que afecta de várias maneiras as populações urbanas, umas por serem altamente especializadas e treinadas para a investigação numa determinada área das várias em que a competição se faz sentir de forma agreste e não deixa tempo para ‘intelectualismos’, outros porque se habituaram simplesmente a repetir o que ouvem aos pais, aos professores, aos padres, aos divulgadores de comportamentos ‘revolucionários, a tudo o que seja conservadorismo ou inovação sem se interrogarem ‘porque’ ou ‘se’ aceitam convictamente pensar assim.

“O que é a Verdade?’, terá perguntado primeiro talvez Pilatos e depois dele uma infinidade de pensadores e filósofos. E o facto é que a Verdade é impossível de definir como conceito universal.

A Verdade é, para cada um de nós, aquilo em que acreditamos! Daí a imperiosa necessidade de pensamos sobre o que ‘vemos, ouvimos e lemos’.

Num mundo em que a mentira – hoje delicadamente conhecida por ‘inverdade’ – se banalizou, sendo o seu uso muito mais frequente do que identificação do que se diz, pensa ou faz com aquilo que se transmite, a verdade anda perdida em sucessivas promessas, contradições, crenças, valores e princípios que acabam por ser na verdade os grandes promotores da ‘inverdade’.

É, para a grande maioria da humanidade terá sido sempre visto como um risco retratar sem comentários um pensamento seu, um facto a que assistiu, reproduzir o que leu. Isso  a que chamamos isenção – muitas vezes chamar-se-ia justiça… – tem mais que ver com a nossa não meditada inserção na sociedade do que com as nossas mais íntimas certezas. Os outros, sendo o nosso espelho, obrigam-nos a agir de acordo com a nossa necessidade de agradar ou desagradar. Um ‘sim’ ou um ‘não’ são mais vezes ditos por conveniência do que por convicção.

Se não pensarmos – seja por adesão a incontestados ‘princípios’ e ‘valores’, seja por simples preguiça ou receio de incorrermos no ‘politicamente incorreto’ viveremos, como vem acontecendo cada vez com mais frequência no tempo e no espaço, à mercê de uma qualquer ‘verdade’, enunciada por alguém para quem pode até  não ser uma verdade mas uma conveniência que pode não ser escrutinada a tempo. E tal pode até ser não um engano mas a validação de uma convicção através de argumentos, esses sim, pensados.

No novo modelo económico que atravessamos, mais privado do que estatal porque ao longo destes quarenta anos o Estado não soube dar provas da sua competência na utilização dos recursos , na atenção às prioridades e na escolha dos indivíduos certos, nasceu, anterior às eleições, da junção de pessoas que detinham os contactos certos nas diversas áreas e conheciam onde e como congregar capital para ‘por o país a andar’. Têm-se feitos imensas asneiras com o propósito popularucho e incentivante de mostrar resultados, mas há um aspecto interessante relativamente ao consumo que penso ser de louvar: incentiva-se cada vez mais ao consumo no que se importa em produtos e vivências de luxo – o mercado a isso obriga..-  e, simultaneamente, até por exigência dos produtores, vai-se gradualmente incentivando o consumo de bens essenciais não exportáveis. Disto resulta libertar para exportação aquilo que é valorizado e obriga, devido aos preços dos ‘bens de luxo’, a uma moderação de gastos que, se coadjuvada pela banca no que respeita ao crédito, leva a que quem tem realmente dinheiro o gaste cá dentro, onde encontra condições e produtos que procuraria lá fora , dando esses sectores emprego a muita gente, e com isso torna acessíveis os bens essenciais à população menos ‘favorecida’, inclusivamente criando também programas e eventos culturais que lhe são acessíveis. Levado a cabo por pessoas e não pelos habituais indivíduos sedentos de lucro é bem provável que as coisas melhorem. Tenhamos esperança…

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