O SILÊNCIO QUARESMAL

Seguimos, nós os cristãos, com a intensidade que o vendaval humano que se gera à nossa volta nos permite, os rituais próprios da época Quaresmal. Prescindimos de alguns prazeres, aproveitamos algumas oportunidades para praticar a caridade, oramos em tempos determinados como os que dedicamos a outras tarefas mas apelando a que o Espírito Santo nos guie nos caminho da Verdade que aprofunda o que do Ser temos em nós, e de que as vicissitudes da existência nos distanciam durante a maior parte dos nossos dias.

As orações, monótonas e repetitivas, que cansariam os ouvidos de qualquer mortal, são o modo que aprendemos de que o nosso desejo de que sejam perdoadas todas as faltas que cometemos e de que, quando sinceras, d’Ele recebamos a força que nos conduza à coerência entre o Mal que repudiamos e o clima de Bem a que aspiramos. Mesmo sabendo que no dia seguinte, apesar das horas de prece, voltaremos a ser iguais a nós mesmos ou, quando muito, engendraremos modo de protelar certos procedimentos para depois da Páscoa. Temos dificuldade em perceber como acontecem por vezes coisas tão horríveis a pessoas que tanto rezam. Os desígnios de Deus são insondáveis e é frequente ouvir que as provações tornam as pessoas mais santas.Talvez.

A purificação quaresmal esgota-se frequentemente nos rituais quaresmais, nos testemunhos públicos da nossa Fé, em tempos de oração mais frequentes ou prolongados. As repetitivas ladainhas e rosários, criadas para serem memorizadas pelos fiéis na sua simplicidade, têm indubitavelmente a virtude de nos afastar de pensamentos outros que não o anseio de comunicar com a Eternidade que nos espera e onde tudo o que é pessoal se dilui em favor da História, desde os tijolos que empilhámos aos grandiosos feitos napoleónicos. Creio que todos nós temos consciência disso por mais relevante que consideremos o nosso papel evangelizador ou o nosso reconhecimento social.O bem e o mal por cá ficam. Na pior das hipóteses levamos conosco os propósitos que nos nortearam.

Aprendi com alguém que acompanhou a minha vida espiritual durante várias décadas e cuja presença ainda me acompanha, que Deus reside no Silêncio, no aprofundamento de um silêncio interior onde a alma repousa purificada de todo e qualquer pensamento. Nem sempre se consegue ir tão fundo no atingir do Absoluto. Há fases sem Deus, em que tudo, dentro e fora de nós, é ruído e as orações se alheiam de nós em monótonas lengalengas. regressar ao nosso ser profundo exige um enorme esforço de concentração. Mas nada vale tanto a pena!

Nem sempre é fácil encontrar o ambiente que propícia esses refrescantes momentos em que o mar de Deus nos inunda e lava e nos oferece uma inigualável sensação de serenidade. Não dizemos nada mas Deus abarca tudo o que nos vai na alma.

Não quer isto dizer que os rituais sejam despiciendos. Nunca o são! Todo o ritual contribui no sentido de um determinado clima espiritual que se prolonga. Sentimos isso mal entramos num santuário, como acontece quando entramos no imenso espaço de um santuário num momento em nada lá se passa e nenhuma gente lá se encontra. O ‘espírito do lugar’, banalizado e com um sentido fatal pelas chamadas ciências sociais, não é pertença do lugar mas do que de mais puro ou verdadeiro os homens ali deixaram.

É nesse silêncio quer perduram gerações de crentes, de santos e pecadores que ali nos acolhem ou se redimem encaminhando-nos no sentido de não repetirmos os mesmos erros.

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