CAMILO DE MENDONÇA

Através de um abrégé biográfico de Marcelo Rebelo de Sousa da autoria de Maria João Avilez, no qual desfazia o mito de que Marcelo Caetano teria sido o seu padrinho de baptismo constatei, surpreendida, que Marcelo é afilhado de Camilo de Mendonça, nome que não via mencionado há muito.

CAMILO DE MENDONÇA foi uma das muitas injustiçadas vítimas não só da revolução mas também, e talvez principalmente, dos que sendo contra ela se aproveitaram da situação para salvaguardarem interesses que lhes vinham escapando em benefício da racionalidade da produção agrícola das aldeias do nordeste transmontano.E, como é bom de ver, qualquer relação que pudesse ser explorada entre Marcelo Caetano e o eventual sucesso da sua obra era por si só demolidora.

E contudo “O CACHÂO”, a grande unidade industrial que Camilo Mendonça montou, teria sido um extraordinário incentivo não apenas para Trás-os-Montes como para a economia nacional.O súbito abandono a que foi votado – como tudo o que cheirasse a Estado Novo – transformou, como sempre acontece, um promissor investimento num enorme desperdício. Portugal é um apaixonado da mediocridade e tudo o que a ultrapassar ou é considerado ‘mania das grandezas’ ou ‘obra de fachada’ Curiosament o Cachão não era – não teria sido…- nada disso se lhe tivesse sido dado tempo de recuperar o investimento nele feito. Teria sido, certamente um gerador de riqueza.

Tive oportunidade de visitar o Cachão no início dos anos oitenta e fiquei maravilhada com o que aquele homem se propunha fazer no sentido de absorver, rentabilizar e dar valor acrescentado ao que era produzido pelos agricultores mais pobres, que um deficiente acesso aos mercados urbanos e a ausência de conhecimento das possibilidades de rentabilizar os produtos fazia estagnar.

O Cachão, comportando onze unidades industriais, era, antes de mais, uma garantia para os produtores de que os seus produtos tinham sempre comprador. Depois, nas referidas unidades, se recheavam, azeitonas, se faziam compotas e queijos, se preparavam as castanhas, se produziam produtos vinícolas e até mesmo álcool. Nessa altura Trás-os-Montes produzia tudo desde as famosas vitelas de leite que eram absorvidas pelos mercados fronteiriços até à criação de bichos de seda alimentados pelas folhas frescas das amoreiras que ladeavam muitas das estradas da região e para cuja recolha as câmaras dispunham de pequenos jeeps com escadas agravadas que permitiam o acesso aos ramos. Uma produção que nos pode parecer despicienda mas em que na altura alguém – também ele com uma carreira promissora mas que se veio a perder nos meandros caóticos do nosso ingresso no Mercado dos subsídios – viu como uma possibilidade de criação das famosas e caríssimas colchas de Castelo-Banco, utilizando a seda de Trás os Montes no linho que então se produzia em Aveiro e, com isso, criando mão-de-obra e, consequentemente, emprego como fazendo chegar tudo isso aos mercados internacionais.

Tudo isso foi liminarmente eliminado! O Cachão, então parado, tornara-se um elefante branco que uns não deixavam e outros não queriam ver aproveitado fazendo concorrência às suas produções de sociedades familiares.

As aldeias terão talvez sido levadas a criar as suas próprias corporativas de cariz popular, as castanhas terão voltado a ser apenas ‘quentes e boas’ – nada de ‘marrons glacés’ ou ‘chataignes’ cobertas de chocolate e embaladas em belas caixas para exportação – e, há uns anos a esta parte voltaram a aparecer os purés de castanhas e castanhas em caldas nuns míseros frascos ou latas que apenas satisfazem os compradores de supermercado. Soube na altura que Camilo de Mendonça emigrara para o Brasil. E talvez o Brasil lhe tenha dado o apreço quero cá lhe negaram…

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