QUANDO A MORTE É ASSUNTO

Portugal, carregado de problemas ,desde os factos políticos às democráticas controvérsias espirituais, tem semanalmente acesso a um debate na Tv pública que, embora admitindo que possa ser impressão minha, não só não esclarece como alimenta as posições em confronto. Não creio que alguém ,que pense , tenha alguma vez mudado de opinião perante os ‘menus’ apresentados pelos ‘prós’ e pelos ‘contra’. Até porque aquilo a que geralmente se assiste não é a um questionar das questões propostas mas à concessão por parte de Fátima C. Ferreira – talhada para este tipo de programas…- de oportunidade de uns tantos escolhidos de entre os eleitos pelos ‘conselheiros’ debitarem as opiniões que já todos conhecem de versões avulsas. Nem de outro modo poderia ser a menos que se quisesse dar o espectáculo de uma ‘peixeirada’ em directo!

Esta segunda feira o tema “Eutanásia” voltou à baila. Não por questões éticas ou morais mas por questões políticas que são fruto de um sistema que tudo aproveita sem o menor escrúpulo. Não foi, obviamente, para instruir ou entreter o povo, ou sequer para lhe proporcionar um serão sereno, mas para exacerbar tomadas de posição sobre um tema que, apesar de a Morte ser tão velha quanto a Vida – talvez um pouquinho mais nova porque o primeiro teve que viver para poder morrer – não creio que tenha afligido os humanos enquanto tais. Nas sociedades, porém, morrem indivíduos estatística e comprovadamente reconhecidos, tal como nas comunidades familiares e outras de cariz afectivo morrem pessoas cujo desaparecimento é encarado como um acontecimento natural envolto em tristeza, no extremo oposto do nascimento que é ,por definição, um acontecimento feliz que a Vida acolhe.

É certo que as sociedades actuais, especialmente as ‘mais evoluídas’, se debatem com problemas demográficos que são o reflexo das suas próprias contradições: glorificam uma evolução cientifica que prolonga a vida muito para além do tempo útil – tão caro a uma sociedade em que o fazer e o ter são primordiais! – o que tem como resultado uma pirâmide com uma alargada base de jovens/velhos, que se contrapõe a uma desesperante carência de natalidade, consequência esta em grande parte dos progressos – uns científicos outros manhosos – na área da contracepção e de os orgãos sexuais com que a Natureza nos dotou – tornando aprazível a concepção para que nos multiplicássemos – servirem actualmente de desporto e brinquedo, mais ou menos requintado consoante a disponibilidades dos jogadores.

Meter nisto a VIDA e a MORTE – ambas expressão do próprio Ser que as identifica no Tempo – é um exercício gratuito e de uma inominável falta de respeito pelo que de mais pessoal e intransmissível reside na essência de cada um de nós. Isto porque a MORTE está implícita na VIDA! Quando nascemos a única coisa que trazemos como certa é o facto de a vida ser limitada por algo a que chamamos morte, embora se possa dar o caso de morrermos várias vezes como pessoas durante a existência como indivíduos. Quando tal acontece tanto podemos estacionar nessa morte e aguardar que a vida atinja o seu término, como ressuscitar para ela e cumpri-la segundo as motivações que para isso encontrarmos.

Tal como o aborto é um roubo que se faz ao mundo e que, como todos os roubos, se justifica que seja penalizado – sou dona do meu corpo mas não do corpo que concebi e cujos dons e missão implícita desconheço -, a eutanásia é uma intromissão ‘apriorística’ no mais solene e consciente momento das nossas vidas, mesmo quando já não nos é reconhecida consciência de vida. É, quanto a mim, inadmissível que alguém decida sobre o que acha ser o imprimir dignidade à minha morte! Se bendigo e dedico uma infinita gratidão aos que se dedicam a minorar o sofrimento dos doentes – e aqui fala-se de DOENÇA e não de MORTE, embora pareça haver conveniência em identificar as duas coisas – não concebo que alguém decida por mim se a minha vida é ou não digna de ser vivida no modo como a detenho. Acresce que podemos sair da vida quando quisermos. Faz parte da nossa liberdade e não necessitamos cúmplices para o fazer. Trata-se porém de um não reconhecimento da Vida em todas as suas facetas das quais a morte natural é parte.

Morte ‘digna’? Morrer em guerras que muitas vezes nem sequer sabemos porque se travam, ser assassinado, atropelado, ou morrer de fome num canto qualquer do mundo é uma morte digna? Ou será que essa preocupação, mais política do que humana – que nos países em que é acessível custa balúrdios e não é de excluir a hipótese que em alguns casos esteja ligada à necessidade de implantação de orgãos – só se põe como hipótese em ‘clima’ hospitalar e sujeita a uma multiplicidade de critérios? Não será preferível deixar que as pessoas envelheçam, que lhes sejam minoradas as maleitas que a velhice trás em vez de lhes andar a fazer testes para descobrir hipotéticas doenças, muitas vezes a título preventivo, e rechea-las de medicação anti-envelhecimento? Mais do que prevenir e abreviar o que se pretendeu prolongar talvez seja apenas importante acompanhar o natural declínio da idade que hoje ninguém parece disposto a admitir. O mesmo sucede com doenças que, confesso, desejamos ver prolongadas para além da esperança de cura, e fazemos-lo mais por nós do que por os nossos queridos, porque nos dói a ideia de ficar sem eles. Mas oferecer uma vida fingida, artificial, que dificilmente teremos coragem de cortar não será pior do que deixar a natureza actuar e a generosidade de profissionais de saúde empenhados nessa humaníssima tarefa suavizar os momentos dolorosos, também eles parte da vida? Pessoalmente considero a eutanásia – seja qual for a argumentação – uma intromissão no que de sagrado existe em cada ser e conceder a médicos e legisladores o estatuto de deuses que decidem sobre a vida e a morte como os imperadores romanos em arenas circenses.

 

 

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