DEMOCRACIA

Ao contrário do que nos é diariamente vendido como ‘crise’ aquilo de que o mundo padece de facto é de uma obsessão que começou por ser ministrada como uma espécie de terapia contra as ditaduras que se seguiram às duas grandes guerras do século passado – única maneira de, melhor ou pior, transformar em cosmos o mundo caótico delas saído – e se transformou num modelo único, considerado ideal, justificação de todas as intromissões, justificação para uma globalização que sendo mercantil se apresenta como progresso social. Chama-se ela Democracia e, em seu nome -há muito isento de outro conteúdo que não seja o dos interesses que  esconde – tudo é permitido, justificado por falsas promessas , megalómanos projectos e maquiavélicas estratégias com que, num mundo em que a informação é cuidadosamente orientada para fins determinados pelos foruns onde convivem os poderes de uma Civilização vitimada por duas revoluções – uma teórica, a Francesa; outra pragmática, a revolução industrial – que, embora divergentes nos propósitos, marcaram definitivamente  o rumo da civilização ocidental, que se espraiou pelo mundo e vê hoje caírem sobre si as consequências da ausência de projecção dessas mesmas consequências para o um futuro que teimamos em ignorar em privilégio do presente. Tal seria possível se não tivéssemos inventado o tempo.

A revolução Francesa prometeu enciclopedicamente uma sociedade que requeria estados de alma individuais unidos por um projecto comum visando a criação de um mundo de portas e corações abertos, partilhando uma só alma que alastraria pelo mundo. O celebre quadro de Delacroix documenta primorosamente o modo como a Liberdade – apenas ela! – calcou aos pés os restantes propósitos, substituída a fraternidade – não, é certo, a que Cristo apregoou – pela ânsia de uma igualdade em que se enfrentavam a inveja, a ganância e o terror. Napoleão, grande admirador da Antiguidade Clássica, teve a sublime pretensão de matar o passado da Europa para construir uma outra, ao seu jeito, e com ela trouxe para a ribalta de uma recém criada classe média o brilho faustoso dos palácios, vivido neles até então com o comedimento de quem conhece o valor das coisas. A miséria espalhou-se pela França em todas as suas formas e havia que mantê-la com a mesma esperança que a fizera crescer e fizera aumentar em número e qualidade as desigualdades. A sociedade ocidental bem-pensante e confortavelmente instalada – mortos que tinham sido os seus ideólogos – viu com bons olhos essa aproximação ao Poder e transformou-a em inspiradora doutrina, lembrando esporádica e convenientemente o sentido universal que se propunham, esquecendo,  evitando ver ou afastando-a de onde pudesse ser vista a infra-humanidade que corroía os bairros  miseráveis das cidades. E nada disso se alterou de forma tão retumbante e significativa como os propósitos enunciados e a sua validade. Ler Heródoto ou os contos bíblicos do Antigo Testamento teria sido suficiente para conhecer as particularidades da natureza humana e a força desmedida que opõem a tudo o que toque a sua essência.

A revolução industrial, apesar das virtudes vitorianas, não trouxe consigo mais do que aquilo que objectivamente visava: a criação de riqueza através dos recursos que se disponibilizava a si própria, desde o material ao humano. O desenvolvimento, que de inicio criou, foi rapidamente ultrapassado pela noção de ‘progresso’, algo de imparável que de há muito ultrapassou o controlo das sociedades ocidentais e as expõe ao ridículo de, conhecendo os danos que causam ao ambiente e a desumanização a que condenam as sociedades, dissertarem nos grandes areópagos internacionais sobre os problemas sociais que criaram e fomentam, mascarados de pomposas preocupações e floridos propósitos. A verdade é que o Emprego depende da Produção, a Produção do consumo – os consumidores viraram ‘benfeitores’- o Consumo do Capital, e o Capital comanda este fatídico mundo através daqueles que o gerem e onde Religião e Política se entrosam para imprimir à ganância e ao espavento um halo de espiritualidade. Somos um mundo condenado a sobreviver através de enganos! Dos enganos que uma comunicação feroz publicita e de uma retórica que se foi despojando de moral para sobreviver ela própria e ainda conseguir ser ouvida.

No meio de tudo isto o futuro do Mundo parece residir na imposição de um convívio tolerante e democrático, em que as exigências de tolerância sejam   impostas em nome da Democracia, mesmo para aqueles que não só não lhe conhecem sequer o significado mas apenas as virtudes que são apregoadas como sendo-lhe associadas, como a rejeitam genuína, essencial e culturalmente. O Ocidente, contudo, dá a vida por ela, mesmo que nos subúrbios de Chicago, Nova Iorque, e de todas as cidades europeias     a miséria se arraste, as desigualdades continuem o seu percurso histórico mudando apenas os protagonistas, a liberdade sofra as imposições que os estados impõem, e a fraternidade – baptizada agora de solidariedade para se distanciar das fidelidade maçônicas – seja cada vez mais condicionada pelos grupos que, apesar de tudo, mantêm coesa essa sociedade injusta.

A Democracia, ao contrário Poder – que alimenta quotidianamente a contestação e motiva tanto o agricultor na sua relação com a Natureza, como o rei que contesta fronteiras – é uma invenção humana que se tornou obsessiva e está servindo de pretexto a abusivas intromissões que nos sairão caríssimas porque o preço dela é pago em vidas. E está mais do que provado que ser a Democracia inimizada Meritocracia que o mundo insiste em afastar escudado por humanitárias preocupações. E, contudo, nada mais humano do que a Paz! E é dela que o mundo carece e, dentro dele, cada um de nós….

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