O BOOM EDITORIAL QUE ASSOLOU AS BANCAS DE VENDA DE LIVROS

De todas as artes, a Literatura – e consideremos o conceito num sentido amplo….- talvez seja a que mais beneficiou com os avanços tecnológicos que permitem a sua divulgação e, pela rapidez, lhe conferem a liberdade de  tudo ser passado à escrita sem qualquer espécie de avaliação que vá para além da proporcionada pelos próprios meios utilizados – corretores de erros (que vieram em socorro dos dislexicos e dos que tiveram a dita de atravessarem vários acordos ortográficos), assistentes de fórmulas gramaticais (nem sempre as mais correctas…), acesso a redes sociais de publicidade e marketing, e os vários outros que são do nosso conhecimento. Isto deixando de lado as virtualidade da tradução automática que permitem que um livro que escrevi numa noite de insónias  esteja traduzido nas mais variadas línguas onde os editores – e são à centenas! – têm contactos. A globalização a funcionar no seu melhor…

Se juntarmos a isto a possibilidade de catarse que a escrita propicia a uma sociedade assoberbada de problemas que a ultrapassam e, simultaneamente, o desejo de visibilidade, de se ser ‘conhecido’ pelo vasto mundo que, é-nos lícito supor – embora seja a mais ilusória das pretensões…- nos conferirá um qualquer grau de ‘imortalidade’ por mínimo que seja, é compreensível o ‘boom’ literário que invade todos os espaços propícios. desde as bancas e quiosques de jornais aos supermercados, passando pelas várias FNACs e livrarias de bairro. Salvam-se desta vaga  OS LIVREIROS  que, diga-se, são uma espécie em vias de extinção, requintados espaços onde quem procura um bom livro se satisfaz e regala.

Vem isto a propósito de um volume que me veio parar recentemente às mãos e que, embora o tema parecesse aliciante e promissor no sentido de desvelar a humanização de um mistério recorrentemente abordado -embora com menos prosódia – a uns anos a esta parte, me pos a reflectir mais na sua existência como livro do que no tema abordado.

Trata-se de um livro, assaz volumoso, que versa nem mais nem menos que sobre ‘A vida privada de Jesus’, versão em que, entre crentes e não crentes, é de crer que dificilmente alguém esteja interessado na vida privada de um personagem que viveu há mais de dois mil anos e cujo único interesse é o de ter fundado uma religião cuja espiritualidade era humanizada pelo convite ao amor real, vivído na fraternidade dos homens.

O livro, assaz confuso mesmo para quem esteja habituado perspectivas e retrospectivas para que nos remetem os documentos históricos ‘inéditos’ – atribuídos à descoberta e investigações de dois académicos canadianos que os terão descoberto na Biblioteca Britânica – não se limita a dar conta dos textos e , talvez, proceder ao seu enquadramento histórico, mas é pasto das mais livres considerações, considerações que se perdem num infinito regresso que deixaria Proust a perder de vista.

No meio de toda aquela confusão – que mais parece ter como finalidade encontrar argumentações para comportamentos susceptíveis de serem considerados ‘desviantes’ dentro de uma ortodoxia religiosa e que, se ‘vendidos’ como práticas comuns no tempo e no espaço da vida de Jesus – encontramos Maria, a Mãe de Jesus, confundida com deusas pagãs, o que não é surpreendente porque o mundo já era velho quando Jesus nasceu, com Maria ‘a Madalena’ e tudo remetendo para a aceitação ou não de circunstâncias que nada têm de objectivo para além da vontade dos autores de buscarem na História as conclusões que desejam.

Vendido e apregoado na contra-capa como sendo ’em parte história de detectives, em parte aventura moderna’ promete ao leitor um interesse de que na verdade carece porque é, pela falta de clareza, uma imensa canseira! Mesmo para aqueles que vêm apenas em Jesus o personagem de uma história de cariz culturalista. A capa é, quanto a mim, o melhor do livro. Como, aliás, está começando a acontecer nesta precedência natalícia em que o embrulho é o principal…

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